Em
comemoração ao centenário de aniversário de Mário
Quintana, a peça teatral Quintana in
cômoda foi criada.
Adaptar é uma tarefa difícil. Transpor uma obra
artística para outra é pior ainda. Contudo, não há uma teoria para
essa transposição, pois cada obra é única. Cabe, então, ao
roteirista e ao diretor promoverem a configuração poética. Sete
poemas que se transformam em uma peça teatral. O
espetáculo Quintana in cômoda tem roteiro
criado a partir de poesias de Mário Quintana no ano do centenário
de nascimento do poeta gaúcho. A peça teve estreia em 2006 e foi
encenada pelo Teatro de Gaiola (RS). A companhia de teatro
realizou várias apresentações por todo o Brasil, destacando-se
enquanto espetáculo.
O
poema Só para si deu origem ao nome da peça. Trata-se de
uma cômoda gorda, fechada e egoísta que guarda em suas gavetas
"coisas" de tempos passados. Dentre elas, três personagens. As
"coisas" guardadas ganham vida e se transformam.
Quintana in cômoda tem a fusão de dois elementos
artísticos distintos: textos líricos e espetáculo teatral. Estes
resultam em um movimento intenso que articula a linguagem cênica da
poesia junto com os elementos do teatro. É a partir do poema
Só para si que o enredo é
estruturado.
"Dona Cômoda tem três
gavetas,
E um ar confortável de senhora
rica.
Nas gavetas guarda coisas de
outros tempos, só para si.
Sempre foi assim, dona Cômoda:
gorda, fechada e egoísta."
No roteiro, o poema é dividido em duas partes: os três
primeiros versos são os textos de abertura, e o último, o texto de
encerramento. Os demais poemas são inseridos nesse
espaço.

Dona
Cômoda
No
espaço real e simbólico estão ocultadas "coisas objetos" e "coisas
personagens", que se lançam para o lado exterior e procuram
conhecer os outros.
Primeira manifestação das “coisas
personagens”.
As “coisas personagens” se lançam para o
mundo.
Um exemplo da tradução da metáfora de Quintana: o cachecol
transforma-se em cortina.
Imagem poética criada pelos atores a partir da
borboleta amarela, do poema Outono.
Alguns poemas, no espetáculo, são apenas ilustrados com
a presença de objetos que aparecem na poesia de Quintana. É o caso
da lata de sardinha que aparece no poema
Mentiras.
"(...)
O trem descarrilhou. E o mocinho? Meu
Deus!
No
auge da confusão, levaram Lili para a cama à
força.
E o
trem ficou tristemente derribado no chão,
Fazendo de conta que era mesmo uma lata de
sardinha."
O catavento também figura enquanto
objeto. Na cena em que aparece, espalha o vento. Os atores,
utilizando-se do som do vento, jogam com o sentimento de medo,
situação que traz ao palco o poema Canção de vento e
nuvem.
"Medo da nuvem
Medo medo
Medo da nuvem que vai crescendo
Que
vai se abrindo
Que
não se sabe
O
que vai saindo
Medo da Nuvem Nuvem Nuvem
Medo do vento Medo Medo
Medo do vento que vai ventando
Que
vai falando
Que
não se sabe
O
que vai dizendo
Medo do vento Vento Vento
Medo do gesto Mudo
Medo da fala Surda
Que
vai movendo
Que
vai dizendo
Que
não se sabe...
Que
bem se sabe
Que
tudo é nuvem que tudo é vento
Nuvem e vento Vento Vento."
O poema Auto-retrato também é
lembrado por meio de uma moldura, que se transforma em
janela.
Uma relação
com o poema Auto-Retrato.
Uma outra forma de transpor elementos da poesia de
Quintana é através dos diversos sons utilizados na trilha sonora do
espetáculo. Um exemplo é o som dos grilos, presente no poema
Noturno arrabaleiro.
"Os grilos...
os grilos... Meu Deus, se a gente
Pudesse
Puxar por
uma
Perna
Um só
grilo
Se desfiariam
todas as estrelas."
E do poema
em prosa Os grilos:
"Toda noite os grilos
fritam não sei o quê. A madrugada chega, destampa o panelão: a
coisa esfria."
Como obra
teatral, Quintana in cômoda propõe um
espaço para o inter-relacionamento de ações e sensações que gerem
conflito. Cada conflito faz com que o espectador conduza-se para
outro conflito, até que este chegue a um ápice em que todas as
necessidades sejam resolvidas.
Os
conflitos se resolvem, e os personagens ao amanhecer, voltam para
suas gavetas.
Ficha técnica
Roteiro: Ana
Carolina Makki Dal Mas / Direção: Fabiano Tadeu
Grazioli / Cenografia: Jolcinei Luis Bragagnolo /
Figurino: Fabiano Tadeu Grazioli; Jolcinei Luis
Bragagnolo / Thilha sonora: Fabiano Tadeu Grazioli
/ Iluminação: Ana Carolina Makki Dal Mas /
Maquiagem: Grupo Teatro de Gaiola /
Elenco: Adriano Massaro; Ana Carolina Makki Dal
Mas; Tiago Luis Rigo.
Fontes: http://www.culturainfancia.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=877:teatro-e-poesia-uma-experiencia-no-mundo-de-quintana&catid=136:riscos-e-rabiscos-sobre-livros-e-leitura&Itemid=165
http://www.clicerechim.com.br/quntana.html